sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009








O TEMPLO




Ela estava sentada, escrevendo. Tudo ao redor estava calmo, somente ela, o silêncio e o caderno recebendo os esboços da composição de uma história. Então ela estava num lago. Entrou nele, nadou até sentir alguma coisa puxá–la; e foi sendo arrastada até o fundo. Mas quando chegou lá a terra se abriu e foi e ela continuou sendo sugada até que tudo parou num jardim. Olhou ao redor: flores, árvores, animais de todos os tipos e no horizonte daquele estranho céu, avistou um templo. Andou, andou e entrou. Dentro dele havia estátuas: eram seres com espadas, arcos; outros com braços e mais braços. Uma longa escadaria chamava e ela foi.








Subiu, foi até o terraço e nele encontrou "o altar". Havia ali uma pessoa que estava deitada com os olhos abertos. Do corpo, estendido em cruz, o sangue escorria depositando-se em canaletas para desaguar em grandes tinas na base da construção onde chacais se fartavam sorvendo aquele vinho de dor.







Ela contemplava a cena quando sentiu a presença de alguém que se aproximava. Voltou-se para trás e deparou-se com um ser de olhos felinos, pele branca, cabelos pretos, garras e armadura. Ele nada diz, não hesita, não espera. Avança; e os dois lutam. Ele rasga sua pele; o sangue escorre. Ela tenta se desvencilhar mas não consegue e eles caem, rolam os degraus até o pórtico num confronto desesperado. Até as feras se detêm diante da luta.







Muitas vezes durante o combate ela sentiu a lâmina rasgar sua pele; não sentia mais. Muitas vezes esperou despertar de um pesadelo vespertino. Estava perdendo as forças; e, vendo-a cambalear, a criatura ergueu sua espada e desferiu o golpe fatal.







Decapitada! Ainda assim, ela podia sentir: a vida se esvaindo do corpo mutilado, o escuro crescendo, as presas afiadas dos chacais, agora ocupados em dilacerar suas partes, disputando um braço, uma perna, um pedaço do flanco.






Ela sabe: não existe mais volta. O quarto já não existe, nem a caneta ou o caderno. As cortinas agitadas pelo vento naquela tarde tão calma, nunca mais! Em cima da cama, uma página aberta e meia dúzia de versos, o poema incompleto que falava do Caminho do Medo, longa alameda repleta de portas abertas para os planetas do Mal.




Carol Beck

R2/D2

fevereiro 2005






4 comentários:

Anônimo disse...

Essa é a mais alucinante história que já li. Um pesadelo vertiginoso, pois é tão intenso, e tão rápido...


Seria também psicanalítico? Só Freud explica, ou Jung... Mistério e terror a mil, insanidade e carnificina, real e irreal, sensações bizarras...


Magnífico. Carol Beck dá de 1000 X 0 em Stephen King. Bravo!

Anônimo disse...

Meu DEUS!...

CHOCANTE.

E genial também a narrativa do desfecho, como uma descrição de cena num filme: a câmera retorna ao ambiente inicial, mostrando os objetos, e pairando sobre a paisagem. Tudo a ver com o cinema épico. Bravo!

Anônimo disse...

Caroline Cabus Beck foi ao inferno e voltou com esses contos fantásticos. O texto levanta ainda mais questionamentos pra gente imaginar... o que serão os planetas do Mal? Foi o livro aberto que serviu de entrada para aquela realidade? O poema incompleto... Sem concorrentes: isso é o mais extremo de tudo o que já li na minha vida. Sério.

Anônimo disse...

Muito legal